Israel alimenta idéia de que só será contido com Irã armado
O ataque de Israel aos palestinos desta Sexta-Feira Santa ameaça os esforços dos Estados Unidos e de seus aliados de submeterem o Irã a sanções para forçar o regime dos aiatolás a desistirem do seu programa nuclear. E alimenta a idéia de que só um Irã armado poderá conter os massacres de Telavive aos seus vizinhos palestinos.
Os ataques são os mais graves desde janeiro de 2009, quando 1.400 palestinos foram mortos por forças israelenses que bombardearam e invadiram a Faixa de Gaza durante dias e noites. As incursões de Israel desta madrugada, com caças F16 de fabricação norte-americana, feriram três crianças palestinas de dois, quatro e 11 anos.
Logo após o ataque de hoje, o governo sionista de Israel ameaçou fazer uma nova grande ofensiva contra a Faixa de Gaza, em represália ao lançamento de foguetes palestinos a partir deste território. É de Gaza que os palestinos lançam artefatos de fabricação caseira para expulsar os israelenses de suas terras, invadidas em 1967.
As tensões na região voltaram a aumentar no mês passado após o anúncio do governo israelense de construir 1.600 novas casas em Jerusalém Oriental – onde os palestinos pretendem fundar a capital do seu futuro Estado “independente e soberano†que o primeiro-ministro da Palestina Salam Fayyad promete proclamar em 2011.
Ao retomar seus ataques contra o indefeso e pobre povo palestino, Israel apenas confirma que não tem nenhum interesse em contribuir com a paz no Oriente Médio, a cujo processo o governo brasileiro ofereceu sua colaboração durante a visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a Israel e à Palestina, em março.
Quando esteve em Israel, Lula ouviu do presidente do Knesset, o Parlamento israelense, Reuven Rivlin, um pedido de apoio do Brasil às sanções que os Estados Unidos querem impor ao Irã, cujo presidente, Mahmoud Ahmadinejad, questiona o holocausto.
Mas se Teerã duvida do massacre de judeus na Segunda Guerra Mundial, Israel perpetra hoje o extermínio de palestinos tão indefesos quanto eram os judeus que sucumbiram sob a Alemanha nazista. Como se os palestinos tivessem comandado os campos de concentração ou acionado os fornos crematórios de Adolf Hitler.
O que Israel pratica hoje em relação aos palestinos em nada difere do tratamento que Saddam Hussein dispensava aos curdos, contra os quais utilizou em 1988 armas químicas fornecidas pelos EUA, seu então aliado. Nem ao massacre de Strebrenica, em 1996, quando mais de 8 mil bósnios foram mortos pelo exército da Sérvia. Ontem como hoje, essas barbaridades são catalogadas como crimes contra a humanidade
Por isso, esse permanente estado belicoso de Israel dificulta o desmonte de argumentos favoráveis ao direito do Irã de desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos, como é o caso do governo brasileiro. E alimenta a idéia de que só um Estado militarmente forte na região poderá restabelecer o equilíbrio de forças no Oriente Médio, que hoje tem a hegemonia de Israel com o apoio militar dos EUA.
Como se sabe, o domínio da tecnologia do aço possibilita a fabricação tanto de inofensivos talheres quanto de poderosos canhões. Da mesma forma, quem domina o ciclo nuclear também pode estar apto a produzir artefatos bélicos além de energia elétrica. É este o temor dos EUA em relação ao programa nuclear iraniano.
Mas num mundo onde as grandes potências atômicas sequer assinaram o Acordo de Não-Proliferação de Armas Nucleares, não faz sentido negar a um país que também vive sob ameaças de seu vizinho o acesso a armamentos semelhantes ao que o outro tem.
No Oriente Médio, hoje só Israel tem bombas atômicas. Será preciso que outro país se arme para conter suas investidas contra os vizinhos. E quem está mais próximo de atingir esse estágio é o Irã. Se Teerã ingressar no clube atômico, não será por falta de provocação de Telavive.
Geraldo Seabra

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