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MST dá carne aos tigres ao destruir laranjal

Ao invadir uma fazenda produtora de laranjas no interior de São Paulo, o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) pisou em falso e contribuiu para a suspensão de uma trégua que se anunciava a seu favor.

A invasão ocorreu dias depois de o governo ter impedido a instalação da CPI para investigar a origem dos recursos para financiar o MST e de o movimento receber manifestações de solidariedade até de figuras conservadoras como o senador José Sarney (PMDB-AP), que condenou a demonização do movimento.

O MST jogou lenha na fogueira do conflito agrário do país ao acrescentar à invasão atos de vandalismo com a destruição de laranjais, de maquinários e depredação de imóveis da fazenda.

Ao ofereceram gratuitamente carne aos tigres, os invasores despertaram a ira dos latifundiários. Estes ainda contaram com o apoio dos meios de comunicação na amplificação dos fatos, desproporcional ao ocorrido.

A imprensa escandalizou a invasão e vendeu para a opinião pública uma imagem bandida e desordeira do MST que não teria compromisso com a reforma agrária, mas apenas com a desordem.

Na terça-feira, dia em que a TV Globo divulgou as imagens da invasão da fazenda com ênfase na destruição dos laranjais, os microfones da Câmara e do Senado foram ocupados pela bancada ruralista na condenação do episódio e conclamações ao governo para reprimir as ações do MST.

Atônitos diante das imagens, nem mesmo os simpatizantes do MST saí­ram em sua defesa e ouviram em silêncio a grita dos ruralistas. Um solitário senador Eduardo Suplicy (PT-SP) reafirmou seu apoio ao movimento, mas não deixou de condenar a invasão.

Até o ministro do Desenvolvimento e Reforma Agrária, Guilherme Cassel, fez coro com a bancada ruralista do Congresso Nacional. Ao condenar a invasão, o ministro afirmou que “reforma agrária é produção de alimentos, não destruição de alimentos”.

O que o MST conseguiu com essa invasão foi ressuscitar a CPI Mista para investigar o financiamento das suas atividades, que havia sido abortada pelo governo na semana passada às vésperas da sua instalação.

Com número suficiente de assinaturas no Senado, os ruralistas partiram em busca do restabelecimento das assinaturas dos deputados retiradas no trabalho do governo que sepultou a CPI. Agora, pode ser que consigam.

Se instalada, a CPI vai investigar a origem dos recursos do MST, ainda que legítima. E passar ao largo das dívidas e dos calotes dos produtores rurais com bancos públicos, que ultrapassam em milhares de vezes os R$ 160 milhões que o MST teria recebido.

Com uma aristocracia rural altamente patrimonialista, que aumenta a concentração de terras empurrando a cerca de suas fazendas sobre terrenos pertencentes ao governo, a reforma agrária se constitui no maior desafio do Estado brasileiro.

Mas para vencer esse desafio não bastam as ações do governo. É preciso que os destinatários da reforma agrária façam também a sua parte.

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