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Com pé na cozinha, Roberto Marinho aceitaria anúncio da comunidade negra

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Nosso companheiro Roberto Marinho, diretor-redator-chefe de O GLOBO, como assinava e gostava de ser chamado, na foto com Maurício de Sousa, não era nenhum ariano. Certamente também não precisaria fazer exame de DNA para ingressar em uma universidade brasileira pelo sistema de cotas.

Ele tinha “um pé na cozinha”, como diria o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Da mesma forma, se vivo ainda fosse, provavelmente Roberto Marinho não teria permitido que seu jornal estivesse pagando o mico de enfrentar uma representação por abuso de poder econômico junto ao Ministério Público do Rio de Janeiro.

Não pelo abuso de poder, claro, mas por rejeitar um anúncio do movimento Afirme-se, que defende as cotas afirmativas nas universidades brasileiras.

O veto ao anúncio da entidade representativa da comunidade negra foi feito de forma dissimulada, sutil. Evitando dizer não, o jornal O GLOBO aumentou algumas dezenas de vezes o valor que seria pago pelo anúncio, inviabilizando, assim, a sua veiculação.

Segundo o jornalista Fernando Conceição, coordenador do Afirme-se, ao saber do conteúdo da campanha, o jornal aumentou o preço de R$ 54.163,20 para R$ 712.608,00 (1.300%), alegando que o texto reflete “expressão de opinião” e que, por isso, teria que cobrar a tabela cheia.

O mesmo anúncio foi publicado pelo O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e A Tarde, ao custo médio de R$ 40 mil cada um.

O anúncio, que enfatiza o apoio de 60% da população brasileira às ações afirmativas, tem o objetivo de manter as cotas nas universidades, tema debatido pelo Supremo Tribunal Federal na última semana.

A representação contra O Globo exige a punição do veículo e a obrigatoriedade da publicação do anúncio a preço simbólico ou gratuito, caso seja comprovada a irregularidade.

Para honrar a memória do seu pai, João Roberto Marinho, responsável pelos destinos de O GLOBO, poderia avocar para si a decisão sobre a publicação do anúncio. Em homenagem aos seus antepassados, poderia até mesmo publicar o anúncio a título de cortesia. E defender, em editorial do jornal, a causa do sistema de cotas.

Geraldo Seabra

Com informações do portal Comunique-se

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