Serra dá viés estatal à sua campanha e confunde eleitor

No melhor estilo de Chacrinha, o governador José Serra (PSDB-SP) vai se lançar candidato à Presidência da República com um programa que poderá confundir os eleitores. De viés estatal, o programa a ser lançado pelo pré-candidato tucano rompe com o neoliberalismo que caracterizou os anos Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e abraça a prática keynesiana dos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o Estado no comando da economia.
Esta foi a saída encontrada por Serra para fugir à comparação entre os governos de FHC e de Lula que o PT pretende imprimir ao pleito de outubro. Assim, o PSDB colocaria o debate em torno da competência de quem poderá melhor administrar o Estado brasileiro, se Serra ou a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, pré-candidata do PT à sucessão presidencial.
Essa postura keynesiana de Serra é coerente com o seu passado, mas bate de frente com o que pretendem o PSDB e as forças políticas que o apóiam, ansiosas para o retorno do Estado neoliberal, quase laisse fair, que caracterizou os dois governos de FHC. Das duas uma: ou Serra está blefando e sua proposta tem objetivo puramente eleitoral, ou, caso seja eleito, ele governará com a oposição.
Com um choque heterodoxo no PSDB, Serra lançará sua candidatura em solenidade prevista para os dias 9 ou 10 de abril defendendo um “Estado ativo†que ele define como um meio-termo entre “o poderoso Estado Nacional Desenvolvimentista do passado” e o “Estado da pasmaceiraâ€, avesso à produção.
Não está claro se em seu neologismo para “Estado forte†Serra vai buscar o modelo do regime militar (1964-1985) ou se persegue um passado mais remoto, o da era Vargas (1930-45 e 1951-54). Além da tortura no campo político, esses dois períodos da história republicana brasileira tiveram em comum a marca do Estado forte na condução da economia.
O fato é que Serra está rompendo com a ortodoxia econômica dos dois governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pautados pelo neoliberalismo. Quando era ministro de FHC Serra se opunha à corrente monetarista que mandava no governo e se aliou a um grupo de economistas desenvolvimentistas.
Hoje o pré-candidato tucano alija a corrente monetarista e dá força aos economistas heterodoxos. Assim, fica de fora a turma da PUC-Rio, liderada pelo ex-ministro Pedro Malan, e entra em cena o pessoal da Unicamp sob o comando do economista Geraldo Bisoto que já trabalhou com Serra no tempo em que ele foi ministro da Saúde.
A mola-mestra da política econômica de Serra deverá ser a combinação de juros baixos com câmbio desvalorizado e uma redução da carga tributária nacional. Ele acredita que assim atrairá investimentos privados, aumentando a capacidade produtiva e da criação de empregos no país. Pena que nesse pretendido céu de brigadeiro a economia não possa ser comandada por um piloto automático.
Dessa forma Serra pretende renegar toda a herança dos governos FHC, modelo e vitrine permanente do PSDB. Esta não será a primeira vez que o governador de São Paulo fará isso. Em 2002, Serra perdeu a eleição para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na desconfortável missão de defender os governos de FHC, o que não conseguiu fazer.
Ainda não se sabe se o PSDB vai bancar essa proposta de campanha do seu pré-candidato, em defesa de um Estado forte que o partido tanto abomina. Neste caso, os tucanos terão trocado sua plumagem por pele cordeiro para engabelar o eleitor brasileiro. E também neste caso não será a primeira vez que isso terá ocorrido.
Geraldo Seabra

Comentários
Tell us what do you think.
Não há comentários sobre esta entrada.