Trote violento é coisa de estudante pobre, diz comentarista da CBN

Um comentarista da Rádio CBN responsabilizou hoje os estudantes pobres pelo trotes violentos nas universidades brasileiras. Ao responder a pergunta de uma ouvinte, Max Gehringer disse que o trote violento ocorre devido à queda do valor das mensalidades nas faculdades particulares. Segundo ele, isso possibilitou o acesso ao ensino superior de estudantes “com o mínimo de recursosâ€.
O comentarista disse que no início da brincadeira os calouros não se incomodavam com as pequenas humilhações sofridas por que sabiam que o diploma de curso superior garantia o caminho para o sucesso. Isso, segundo ele, valeu até meados da década de 1960, quando havia no país 400 faculdades e somente um em cada 500 estudantes conseguia concluir um curso superior.
Gehringer disse que depois as coisas foram mudando com a multiplicação do número de faculdades, que chegaram a mil em 1980 e deslancharam em 1990. “Hoje temos mais faculdades do que supermercadosâ€, disse. Esse aumento da concorrência forçou a queda dos preços das anuidades e abriu caminho para o acesso dos alunos pobres ao ensino superior.
“Como a oferta de cursos aumentou, o preço da anuidade caiu, permitindo que qualquer jovem com o mínimo de recursos possa ter a acesso ao curso superior. Por isso, o trote se tornou uma brincadeira anacrônica. Perdeu a sua importância histórica e infelizmente em muitos casos ganhou requintes de sadismo e de perversidadeâ€, afirmou o comentarista da CBN em sua coluna “Mundo corporativoâ€.
O comentário de Max Gehringer é preconceituoso em relação aos estudantes pobres. Nada confirma que sejam eles os autores dos trotes violentos, muito ao contrário. No mês passado, por exemplo, um calouro da Faculdade Mackenzie, onde só estudam filhos de milionários ou da classe média alta de São Paulo, foi hospitalizado inconsciente após ingerir grande quantidade de álcool.
O mesmo pode ser dito dos calouros do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos, no interior de São Paulo. No trote que fizeram em fevereiro, os calouros sofreram queimaduras no corpo com uma mistura que continha creolina. O promotor que pediu o arquivamento do inquérito disse que não havia interesse das vítimas de processar os agressores.
Outro exemplo que não envolveu estudante pobre foi o trote da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), de 1999, que resultou na morte de um calouro por afogamento. Portanto, Max Gehringer devia vir a público e apresentar as provas convincentes de que são os estudantes de menor poder aquisitivo os responsáveis pela violência nas faculdades brasileiras.
Geraldo Seabra

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