Adesão da Venezuela fará o Mercosul mais rico
A aprovação pelo Senado do protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul pode ser o passo mais importante para o projeto de integração da América do Sul desde a criação do bloco, em 1986. É reconhecimento do Brasil aos esforços de um país que nos últimos anos tem dedicado parte da sua maior riqueza, o petróleo, para reduzir as desigualdades internas e a dos seus vizinhos no continente latino-americano
Para que se complete o processo de adesão da Venezuela, bastará que o Congresso do Paraguai acompanhe a decisão de Brasil, Argentina e Uruguai e o continente passará a ter um bloco econômico com PIB (produto interno bruto) da ordem de 2 trilhões de dólares e uma população de 240 milhões de habitantes.
A miopia da chamada grande imprensa e, atrelada a ela, a oposição, que procurou por três anos protelar a decisão adotada ontem reduzindo a importância da adesão da Venezuela a picuinhas políticas com o seu presidente, Hugo Chávez, não permitiu que enxergassem a grandiosidade dessa decisão histórica.
Reagindo como meninos mimados a uma declaração de Hugo Chávez, que em 2007 chamou senadores brasileiros de “papagaios de Washington†ao apoiarem censura do governo dos Estados Unidos à sua decisão de não renovar a concessão de um canal de televisão, esses senadores passaram a fazer oposição sistemática ao governo de Caracas.
Desde então, com o apoio da mídia, sem o menor respeito ao chefe de estado de um país amigo, passaram a dispensar a Chávez tratamento desrespeitoso e irresponsável.
Mais realistas do que o rei, esses senadores ignoraram até mesmo os apelos da oposição venezuelana a Hugo Chávez, que chegou a enviar ao Brasil o prefeito de Caracas Antonio Ledezma com a missão de mostrar ao Senado a importância da aprovação do protocolo não para o presidente, mas para o povo da Venezuela.
Durante anos a oposição gastou discursos e a imprensa brasileira toneladas de tinta e de papel contra o ingresso da Venezuela no Mercosul. Por todo esse tempo insistiram em chamar de ditador um presidente que venceu 14 eleições.
Dispensaram a Chávez o que as elites brasileiras dedicam ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fazem uma oposição conhecida, cujas raízes estão na frustrada tentativa de fazer sombra ao sucesso das políticas sociais que estão tirando o povo da merda, para usar palavras sinceras ditas por Lula semana passada. Tanto aqui, como na Venezuela
Embora a Venezuela seja dos maiores produtores de petróleo do mundo, sua população vive em estado de grande pobreza. As favelas de Caracas são tão miseráveis quanto as favelas de São Paulo e Rio de Janeiro, ou os alagados de Salvador e Recife.
Pela primeira vez na historia do país, um quarto dos ganhos do petróleo, que antes só beneficiavam as elites venezuelanas, passaram a ser usados para reduzir a pobreza.
Com Chávez, a pobreza extrema já foi reduzida em 10%; a taxa de escolaridade subiu de 40% para 60%, incluindo a pré-escola que como no Brasil antes não existia para a população pobre. O analfabetismo foi zerado. A água potável, privilégio de 80% da população, agora atinge 96% dos venezuelanos. Política de saúde desenvolvida com ajuda de médicos cubanos reduziu à metade o índice de mortalidade infantil, que caiu de 27 por mil para 14 por mil.
Nos últimos dez anos, a Venezuela progrediu muito. E isso incomoda muita gente. O IDH (índice de desenvolvimento humano) do país subiu consideravelmente, o desemprego caiu, o emprego formal aumentou, a renda da população cresceu e com isso puxou o consumo de alimentos, que teve aumento de 170%.
Até a energia elétrica registrou um pico de consumo, porque aumentou o número de venezuelanos que passaram a ter luz em casa. Por isso, é natural que num país que importa 70% do que consome haja desabastecimento de alguns itens. Até mesmo de eletricidade, parte da qual abastece o estado de Roraima, vizinho da Venezuela.
As políticas sociais de Chávez aumentaram também os ganhos dos aposentados e dos trabalhadores. Os salários subiram em média 20% e como no Brasil o salário mínimo bateu a casa dos 200 dólares. A redução do desemprego está sendo conseguida com a adoção gradual de uma jornada de trabalho européia, de seis horas diárias.
Fora de suas fronteiras, a Venezuela tem programa de ajuda até aos pobres dos Estados Unidos. Na América do Sul, está construindo o Gasoduto do Sul, que ligará as reservas de gás venezuelanas a todo o continente. No Brasil, em parceria com a Petrobrás, a PDVSA, estatal venezuelana de petróleo, está construindo uma refinaria no município de Abreu e Lima, em Pernambuco, um investimento de 12 bilhões de dólares.
Acho que já dá para entender porque as elites brasileiras, por meio da grande imprensa e da oposição ao governo Lula – PSDB, DEM e PPS – sustentaram durante tanto tempo um discurso contrário à adesão da Venezuela no Mercosul. Alegam que o país de Chávez poderá contaminar o bloco. Também acho que pode. Vai contaminar de justiça social, de legislação trabalhista avançada, de solidariedade e de investimentos.
Geraldo Seabra

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