Sem apoio do PSDB, Aécio desiste da candidatura
Sem apoio do seu partido, que nunca escondeu o desprezo pela sua candidatura, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, finalmente anunciou na tarde desta quinta-feira que desistia de disputar com o governador de São Paulo, José Serra, a indicação do PSDB para disputar a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2010.
Além de nunca ter engolido a candidatura de Aécio, e sua proposta de realização de prévias pelo partido para escolher o candidato, o PSDB sempre censurou a proximidade do governador mineiro com o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), desafeto do partido e de Serra, candidato preferido dos tucanos para tentar reconquistar a Presidência.
Com a saída de Aécio do páreo, afasta-se também a suspeita de que ele costurava com Ciro Gomes uma dobradinha para enfrentar os candidatos do governo das eleições presidenciais do próximo ano. E como Aécio não confirmou sua candidatura ao Senado, ainda pode ser chamado para formar com Serra uma chapa puro sangue, ele de vice.
A desistência de Aécio facilita a vida de Serra, cuja resistência em assumir sua candidatura antes da data que delimitou para a abertura do processo sucessório – março de 2010 – sustentava as aspirações do governador de Minas. Com a renúncia de Aécio, Serra agora é o único pré-candidato do PSDB às eleições presidenciais do próximo ano.
Serra, que preferiu distribuir na noite de hoje uma nota em vez de falar sobre a desistência de Aécio, ao contrário de outras lideranças tucanas, foi sincero ao não manifestar surpresa com a decisão do seu ex-concorrente. “Não me surpreendem a grandeza e desprendimento que ele demonstra neste momentoâ€, disse Serra, ensaiando um convite para Aécio aceitar compor sua chapa como candidato a vice-presidente.
Mas para conseguir essa adesão de Aécio, Serra precisará lhe garantir que ganharão a eleição. Na sua carta de renúncia, o governador mineiro apontou o que chamou de “armadilha do confronto plebiscitárioâ€, ou seja, o risco da oposição perder a eleição caso o PT insista em fazer do pleito uma comparação entre o governo de Fernando Henrique Cardoso e o de Lula. Este seria outro motivo para a sua desistência.
Embora o próprio Aécio tenha enxergado a dificuldade de vencer a eleição do próximo ano, principalmente se forem colocados na balança os governos de FHC e de Lula, o fato passou despercebido pelo jornal O Estado de S. Paulo, cujo blogueiro de política ao analisar a desistência do governador mineiro dá como favas contadas a vitória da oposição numa eventual dobradinha Serra-Aécio. Leia abaixo o que ele escreveu:
“ Reforça assim [a desistência de Aécio], a possibilidade de transformar em acordo uma proposta antiga que o partido lhe fizera de aceitar ser um vice com força política e poder de gestão no futuro governo. Não seria um vice decorativo, mas estaria à frente de um ministério super-poderoso, ou indicaria os titulares de seis ministérios. No mínimo, seria o que Serra foi para Fernando Henrique.
Isso garantiria a Aécio uma visibilidade como gestor capaz de sedimentar o caminho para a sucessão de Serra, em 2014, quando o atual governador de São Paulo estará com 72 anos. Como a convicção, tanto de Serra, quanto de Aécio, é a de que terão de dar continuidade aos avanços sociais obtidos por Lula, é possível imaginar-se um governo sintonizado com o que o eleitor manifesta nas pesquisas. E, portanto, com chances de manter-se no Poder em 2014.â€
Ainda que seu texto esteja no condicional, vale perguntar o que Serra foi para Fernando Henrique. Pelo que registra a história, um candidato derrotado por Lula. Que não teve, portanto, a garantia de uma visibilidade agora imaginada para Aécio, “capaz de sedimentar o caminho para a sucessão de Serra, em 2014, quando o atual governador de São Paulo estará com 72 anos.â€.
Como se vê, os jornalões da grande imprensa continuam proclamando a vitória da oposição nas eleições de 2010, mas sem antes combinar com os russos. Neste caso, os russos são os eleitores brasileiros. Talvez, por isso, tenham dado tanto espaço à desistência de Aécio, cantada em prosa e verso desde que ele se lançou candidato à revelia do seu partido.
Geraldo Seabra

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