PO não renunciou para presidir aniversário de Brasília

Realizar o sonho de presidir as solenidades do 50º aniversário da fundação de Brasília, no dia 21 de abril, foi a maior motivação para o governador em exercício Paulo Octávio Pereira desistir de renunciar ao governo do Distrito Federal, nesta quinta-feira, 18. Para isso, submeteu-se até ao constrangimento de um desmentido do Palácio do Planalto.
Por trás dessa fogueira de vaidades, PO, como Paulo Octávio é conhecido em Brasília, busca também aplacar a força das investigações que rondam o seu quintal. Ele precisa livrar a cara do principal executivo de suas empresas, Marcelo Carvalho, filmado recebendo propina de Durval Barbosa no escândalo que ficou conhecido como “mensalão do DEM†desvendado pela operação Caixa de Pandora da Polícia Federal.
Apesar da prova cinematográfica, e das afirmações de Barbosa de que ele era beneficiário do esquema de corrupção, fazendo jus a 30% do total da propina recolhida, até hoje o governador em exercício não respondeu satisfatoriamente aos fatos. Nem disse o que o dirigente das suas empresas fazia na sala do ex-secretário de Relações Institucionais de Arruda nem para quem ele levava o dinheiro que recolhia de Barbosa.
Na tarde desta quinta-feira, na hora marcada para a sua anunciada renúncia, PO usou um púlpito do Palácio do Buriti como tribuna de onde discursou um rosário de mentiras enquanto desconstruía a esperada renúncia, diante de uma atônita platéia de jornalistas que já haviam cantado em verso e prosa a sua desistência de continuar a frente do governo.
Entre as mentiras que contou, Paulo Octávio disse que estava atendendo a apelos dos partidos políticos, da maioria da população de Brasília e até mesmo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem estivera rapidamente pela manhã, e de quem teria ouvido um apelo para que resistisse à tentação da renúncia. Antes mesmo de PO acabar com a sua catilinária, o Palácio do Planalto apressou-se em desmenti-lo.
Outra mentira é a de que teria entregue sua carta de renúncia à líder do seu partido na Câmara Legislativa, deputada Eliana Pedrosa. A única possibilidade dessa carta estar com ela é se não contiver a assinatura de PO.
Casado com uma neta do ex-presidente Juscelino Kubitschek, Paulo Octávio autoproclamou-se herdeiro político do fundador de Brasília após a morte da sua sogra, a ex-vice-governadora do DF, Márcia Kubitschek, em 2000. Essa “herança†que faz questão de desfilar é reforçada por sua mulher, Ana Cristina Kubitschek Pereira, que lhe infla o ego ao afirmar que é o marido quem representa a família de JK na política.
Há muito que o governador em exercício Paulo Octávio alimenta a idéia fixa de governar Brasília. Sua vontade é tanta que há quatro anos renunciou à metade do seu mandato de senador para formar com José Roberto Arruda a chapa vitoriosa do DEM que no dizer do procurador geral da República, Roberto Gurgel, é “uma quadrilha que se encastelou no governo do Distrito Federal para apoderar-se de recursos públicosâ€.
Depois de perder para Arruda a indicação do PFL, sucedido pelo DEM, para se candidatar ao governo, PO aceitou a condição de vice diante do compromisso assumido por Arruda de lhe entregar o governo no último ano do mandato, agora em 2010.
Era intenção de Arruda retomar a cadeira de senador, deixada para trás na renúncia salvadora dos seus direitos políticos depois de flagrado na violação do painel do plenário do Senado, em 2001.
Este acordo, quebrado por Arruda, daria a Paulo Octávio a oportunidade de presidir as comemorações dos 50 anos da fundação de Brasília, sonho alentado desde que iniciou sua carreira política, há 20 anos.
Nos últimos anos, PO tem procurado estar à frente de tudo o que se relaciona a JK, como investigações sobre as causas da sua morte, comemorações de aniversário, anistia, e o Memorial JK, museu que guarda os restos mortais, documentos, fotografias e condecorações do ex-presidente. A mulher de Paulo Octávio, Ana Christina Kubitschek Pereira, é a presidenta do memorial que leva o nome e guarda a história do seu avô.
No ano passado, por ocasião da passagem do 107º aniversário de nascimento do ex-presidente, Paulo Octávio deu ao espaço situado entre os hotéis Kubitschek Plaza e Manhattan Plaza, de sua propriedade, o nome de Praça JK.
Exercendo o governo na ocasião, ele anunciou uma série de obras para terem sua inauguração coincidindo com os festejos do 50º aniversário da fundação de Brasília, em 21 de abril.
Corretor de imóveis que se tornou um dos maiores construtores da região Centro-Oeste, Paulo Octávio gosta quando lhe chamam de “Novo JKâ€. Ele fez fortuna em Brasília sempre à sombra do poder, intermediando a venda de suas construções para órgãos públicos. Além da maior imobiliária da região, PO é proprietário de hotéis, shopping centers, emissoras de rádio e televisão, e concessionárias de automóveis.
Se JK realizou seu sonho de construir Brasília, Paulo Octávio ainda não sabe se realizará o seu de presidir como governador o aniversário de 50 anos da cidade. Ele ainda precisará aguardar os acontecimentos dos próximos dias, ou continuará sonhando acordado.
Geraldo Seabra
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Mais líquido e certo do que este artigo só soro de leite.
Vamos aguardar os acontecimentos.