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Guerra do tráfico podia ter sido evitada

Longe da pretensão de querer esgotar o problema da violência no Rio de Janeiro com as poucas linhas deste artigo, é inegável que a guerra urbana que se instalou na cidade há cerca de 30 anos tem suas causas na absoluta ausência de ações do Estado junto às populações mais pobres.

Datam do início dos anos 1980 – primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro – as últimas ações governamentais para dar aos favelados cariocas o mínimo de dignidade.

Foi quando Brizola tentou oferecer a toda a população carioca igualdade no acesso aos serviços públicos, da luz à segurança.

Brizola foi eleito para o seu primeiro de governador do Rio de Janeiro em 1982, após a anistia aos punidos pelo golpe de 1964 e já na agonia do regime militar. Suas ações foram duramente combatidas pelas elites cariocas, lideradas por incansáveis campanhas de desestabilização do seu governo pela Rede Globo de Televisão.

Além dos programas de urbanização das favelas, os veículos de comunicação da família de Roberto Marinho combatiam também o programa educacional de Brizola, materializado na construção de mais de 500 CIEPs, os Centros Integrados de Educação Pública.

Os CIEPs foram construídos, na sua maioria, em favelas e regiões da periferia da capital e do estado. Isso consolidou o o nome de Brizola entre os eleitores destas áreas que batizaram os CIEPs de Brizolões.

Os opositores diziam que os CIEPs eram “caros, de custosa manutenção”, ignorando a importância do projeto, que visava a manter crianças dentro do ambiente escolar durante a maior parte do dia.

Nesses CIEPs, em prédios projetados por Oscar Niemeyer, as crianças tinham aula em tempo integral. Tomavam café da manhã, almoçavam e jantavam na escola. Tinham acesso a todas as práticas esportivas em suas quadras de esporte. Os pais não gastavam com material didático nem uniforme.

Com sua política de urbanização dos morros, Brizola colocava um freio na política de erradicação das favelas iniciada 20 anos antes pelo então governador Carlos Lacerda.

Lacerda pôs em pratica um projeto para limpar as zonas centrais do Rio de Janeiro de gente pobre, em benefício do mercado imobiliário.

Com recursos do programa Aliança para o Progresso, do governo dos Estados Unidos, Lacerda destruiu cerca de 30 favelas e desalojou dos morros mais de 40 mil pessoas.

Lacerda fez ainda a festa da indústria da construção civil, que levantava os conjuntos habitacionais para os locais onde eram mandados os favelados – bem distantes dos seus locais de trabalho – como a Cidade de Deus.

Para combater essa infâmia, que a ditadura militar sustentou por algum tempo ao abortar tentativa do sucessor de Lacerda, o governador Negrão de Lima, de melhorar as favelas, Brizola chegou com uma proposta nova e absolutamente revolucionária.

Brizola quis manter os favelados nas favelas. Dotar as favelas de todo o equipamento público disponível nos bairros de classe média e alta, como postos de saúde, escolas, delegacias de polícia, água, luz, esgoto, correios, iluminação e transporte públicos.

Dar cidadania aos favelados, emitindo documentos de identidade desde a certidão de nascimento. Dar dignidade aos moradores das favelas, onde a Polícia foi proibida de entrar atirando sem saber em quem nem para quê.

Era o Estado tomando o lugar dos traficantes – que nessa época já substituíam os contraventores do jogo do bicho – ocupando seus antigos pontos para comercializar cocaí­na, a droga que trocada pela maconha ajudou a forjar o crime organizado no Rio de Janeiro.

Isso era demais para a Rede Globo e para as elites cariocas. Conviver com pobres e pretos, lado a lado, nem pensar. E acima de tudo pobres e pretos com os filhos freqüentando escola de qualidade, em condições de igualdade com os filhos dos brancos ricos.

Quando governou o Rio Grande do Sul, Brizola construiu em quatro anos 5.902 escolas primárias, 278 escolas técnicas, 131 ginásios, colégios e escolas normais. Abriu 600 mil novas vagas nas escolas e contratou 42 mil novos professores.

A Globo não queria governando o Rio de Janeiro um gaúcho com essa bagagem. Brizola era uma ameaça ao poder das elites cariocas. Ele já havia construído 500 CIEPs e começava a urbanizar as favelas. Para acabar com isso, só tinha um jeito. Muito pau na moleira do Brizola.

A continuar como estava, os filhos dos pobres e pretos, que bem alimentados passaram a freqüentar boa escola, iam acabar disputando os empregos com os filhos dos brancos e ricos.

Em vez de serem os trombadinhas que são hoje, os traficantes que são hoje, os bandidos que são hoje. E se isso tivesse acontecido, a Polícia não tinha em quem atirar, não tinha a quem sair matando.

Dá para imaginar o que seria o Rio de Janeiro de hoje se os projetos de Brizola tivessem tido continuidade. Com os morros urbanizados e os CIEPs educando os pobres e pretos.

Com certeza, não teríamos assistido, como ocorreu no último sábado, a “primeira” prova das Olimpíadas de 2016. A de tiro ao alvo, ou ao helicóptero da Polícia Militar. Abatido em meio a mais uma batalha da guerra entre traficantes e as forças de segurança do Estado.

Guerra que talvez não houvesse fossem os morros cariocas urbanizados, mesmo sem serem ricos, e suas crianças tivessem boas escolas, mesmo sendo pobres e pretas.

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Comentários

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  1. Beto says: 22 de outubro de 2009

    para ler

  2. Christiano says: 29 de novembro de 2009

    Se o Brizola fez tudo isso…

    Pq o Rio é só violência ???

    Faça-me o favor…

    Jornalista q é jornalista… Deve ouvir os 2 lados e ser imparcial !

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