Irã, Honduras e uma duvidosa crítica diplomática
Sob o título “Irã, Honduras e uma duvidosa aposta diplomáticaâ€, o jornal O Estado de S. Paulo publicou neste domingo (20/12) um artigo de Paulo Sotero sobre um sentimento negativo que está tomando o lugar da disposição favorável ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à crescente presença internacional do Brasil que prevaleceu em Washington até poucos meses atrás.
A razão dessa queda de Lula e do Brasil no ranking de simpatias dos Estados Unidos deve-se, segundo o articulista, às divergências entre os dois países em relação ao golpe militar que derrubou o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, e à recepção dada por Brasília ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.
Em meio a esse clima, um novo ingrediente foi acrescentado ao contencioso diplomático entre os dois países: a briga de famílias em torno da custódia do menino Sean Goldman, cuja guarda é reivindicada por seu pai natural, americano, e pela família da sua falecida mãe, que era brasileira.
Embora essa questão esteja entregue ao Judiciário brasileiro, em represália um senador de Nova Jersey, estado em que nasceu o menino, bloqueou a aprovação de um projeto de lei que renovaria a concessão de isenções tarifárias a exportações de produtos brasileiros e de outros países em desenvolvimento para o mercado americano, transformando um problema de vara de família em questão comercial.
Críticas feitas aos EUA e ao próprio presidente Barack Obama por Lula e por altos funcionários brasileiros teriam contribuído para reavivar a animosidade de Washington com Brasília. Causou espanto a declaração de Lula de que falta “autoridade moral†aos EUA para negociar questões de não proliferação nuclear. E não falta? O único país que usou arma nuclear contra a humanidade foi os EUA.
Outra coisa foi apontar a provável contradição do governo brasileiro em não reconhecer as eleições em Honduras, onde houve um golpe de estado e o pleito foi realizado sob estado de sítio, e a reeleição de Ahmadinejad, onde teria ocorrido fraude, depois desmentida na recontagem dos votos por observadores da ONU.
Para os EUA reclamarem de fraude eleitoral é o mesmo que o roto criticar o esfarrapado. Se fraude houve no Irã, o exemplo foi dado muito antes, quando para chegar à Casa Branca o presidente George W. Bush levou as urnas da Flórida para contar os votos na casa do seu irmão Jeb, governador do Estado, e assim tomou a eleição dos democratas. Ou seja, quando o assunto é fraude eleitoral, também falta autoridade moral aos Estados Unidos para discuti-lo.
Finalmente, o articulista escreve que a percepção negativa pelos EUA da política externa do governo Lula, “que se cristaliza em Washingtonâ€, é certamente influenciada pelas fortes críticas que vêm publicando os diplomatas brasileiros aposentados Rubens Ricúpero, Rubens Barbosa e Roberto Abdenur, todos ex-embaixadores nos EUA.
O ex-ministro Hélio Beltrão costumava dizer que nós brasileiros não devíamos criticar os Estados Unidos por defenderem os seus interesses. Devíamos ter vergonha na cara e defender os interesses do Brasil. Certamente é isso que faltou a esses diplomatas quando chefiavam a representação diplomática do Brasil em Washington. E pelo jeito continua faltando, a ponto deles insistirem na defesa dos interesses norte-americanos. Ou, na melhor das hipóteses, em não defender os interesses do Estado que lhes pagou salários e hoje os mantém com gordas aposentadorias.
O último gesto de cooperação dos Estados Unidos para com o Brasil já faz 70 anos. Foi quando uma barganha do presidente Getúlio Vargas levou o presidente Franklin Delano Roosevelt, em 1941, a firmar um acordo para a construção da usina de Volta Redonda, que produziria aço para alimentar a indústria dos aliados durante a guerra e serviria ao desenvolvimento do Brasil em tempos de paz.
Depois disso, o que a história registra da presença dos EUA foi o programa Aliança para o Progresso, uma espécie de bolsa família inspirada pelo presidente Kennedy mas que sobreviveu à sua morte e foi realizado por quase toda a década de 1960. Embora na teoria tivesse por objetivo promover o desenvolvimento da América Latina para evitar o surgimento de novas Cubas no continente, o programa caracterizou-se por farta distribuição de leite em pó às famílias pobres do Brasil e de outros países.
A presença norte-americana no continente ainda teve a marca do apoio aos golpes de estado e da manutenção das ditaduras de triste memória que se instalaram em quase todos os países da América do Sul sob o patrocínio de Washington. Isso explica muito bem a repulsa do Brasil ao golpe de estado em Honduras, coisa que os EUA apenas fingem não entender, até porque boicotaram os esforços de todos os países membros da OEA para o restabelecimento da democracia nesse país da América Central.
De costas para o continente desde que as ditaduras começaram a ser substituídas por governos democráticos, os Estados Unidos aos poucos foram perdendo sua hegemonia em seu antigo “quintalâ€. Era assim que sempre consideraram a América Latina – e não suportam ver seu lugar ocupado por novas lideranças e por países que tiveram de cortar o cordão umbilical com Washington para encontrar o caminho do desenvolvimento econômico e social.
É isso que está incomodando Washington, e não esta ou aquela declaração de Lula. Ao final do primeiro ano do seu mandato, o presidente Barack Obama ainda não disse a que veio. Nem um suspeitíssimo Prêmio Nobel da Paz foi capaz de devolver ao mundo a esperança nele depositada desde que chegou à Casa Branca. A frustração, aliás, é também interna. No ano em que devia estar brilhando, Lula lhe rouba a cena. Todas as cenas. E como menino birrento, ameaça cancelar uma visita ao Brasil.
Para crescer econômica e socialmente, foi preciso adotar políticas externas independentes como as implantadas por Argentina, Brasil e Venezuela. Não é mera coincidência o fato dos governos dos Kirchner, de Lula e de Chávez serem alvo crescente da crítica dos grandes grupos de comunicação de seus países pelo novo grito do Ipiranga que deram em relação aos EUA e pelo desenvolvimento que estão promovendo em seus países.
A política externa do Brasil, particularmente, é a mais ousada de toda a história do país. Mais pragmática até das que foram adotadas pelos presidentes Jânio Quadros, em 1961, e Ernesto Geisel (1975-1979). Sob o comando do presidente Lula, o chanceler Celso Amorim desenvolve a política externa que deu a maior presença internacional do Brasil e fez do presidente brasileiro uma das mais importantes personalidades do mundo.
Coisa difícil de engolir pelas vivandeiras de plantão. Ainda hoje elas rondam os quartéis adulando os militares, saudosistas de um passado recente, alvoroçadas por um novo golpe – como o que recentemente se abateu sobre Honduras. Desejam, por meio de rebuscados artigos na imprensa tão golpista quanto elas, é tentar barrar a revolução silenciosa que está em marcha e substituí-la pelo retrocesso, pela submissão aos interesses estrangeiros, pela volta do estado mínimo e pela supremacia do mercado. O mesmo mercado que levou o mundo à bancarrota no ano passado.
Geraldo Seabra

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