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PSDB sepulta Fernando Henrique ainda em vida

FHC_abandonado

O PSDB parece estar decidido a sepultar em vida o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Desde que uma pesquisa eleitoral confirmou que FHC tira voto de quem apóia, os tucanos, quando se fala em eleição, fogem da sua maior estrela como o diabo foge da cruz. Desta fez, o partido decidiu que o ex-presidente ficará calado na solenidade de lançamento da candidatura do governador José Serra à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula a Silva, no próximo dia 10 de abril.

De acordo com o programa da solenidade, FHC ficou de fora da lista de oradores. Essa honra ficará restrita ao próprio Serra, ao presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra, e aos presidentes dos partidos aliados, Rodrigo Maia (DEM) e Roberto Freire (PPS). Uma mulher também deverá discursar e poderá ser a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), a musa dos latifundiários, cotada para ocupar o lugar antes reservado ao ex-governador de Brasília José Roberto Arruda de vice de Serra.

A verdade é que desde que deixou a Presidência da República, onde completou o projeto neoliberal iniciado pelo ex-presidente Fernando Collor, com a abertura de economia, o sucateamento e a privatização das empresas estatais, FHC perdeu a referência do programa de estabilização e os tucanos evitam a companhia do ex-presidente quando precisam se apresentar ao eleitorado.

Coincidentemente, quem inaugurou a política de isolar Fernando Henrique foi o próprio Serra, na primeira vez em que foi candidato, justamente quando FHC ainda estava no cargo e os tucanos imaginavam que poderiam esticar um reinado que já durava oito anos. Isso foi em 2002, quando Lula venceu sua primeira eleição presidencial. Na ocasião, Serra se apresentou ao eleitorado como o “candidato da mudança” e não o da continuação do governo do PSDB.

Em vez de defender o governo FHC, do qual havia sido ministro por duas vezes, Serra usou um discurso de oposição prometendo mudanças. Sua postura não conseguiu sequer confundir o eleitorado, que realmente queria mudanças, mas entendia que se era para mudar isso teria de ser feito pelo candidato da oposição – no caso, Lula – e não pelo do governo, como era Serra.

Na eleição seguinte, quando o candidato do PSDB foi o ex-governador Geraldo Alckmin, ele também se negou a defender ou a usar o governo de Fernando Henrique como plataforma de campanha. Ao contrário, Alckmin usou um discurso em defesa das empresas estatais – chegou até a vestir um macacão da Petrobrás – mas ninguém acreditou na sua promessa de que não privatizaria as empresas estatais que FHC não conseguiu vender. E deu Lula de novo.

A ausência de Fernando Henrique dos palanques do PSDB na eleição presidencial deste ano se justifica com o medo que os tucanos têm da associação do seu nome com uma nova tentativa de privatização da Petrobrás, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do BNDES e do Sistema Eletrobrás, frustrada no governo FHC. Se essas empresas tivessem sido privatizadas, o Brasil certamente estaria naufragado e não teria saí­do ileso da crise financeira internacional da qual ainda não se recuperaram economias como a dos Estados Unidos e de alguns países europeus.

Para a eleição deste ano, Serra também já abandonou o neoliberalismo do governo FHC que o PSDB pratica quando governa, mas nega quando está na oposição. Seu programa rompe com o neoliberalismo característico dos anos Fernando Henrique (1995-2002) e abraça a prática keynesiana dos governos de Lula, que mesmo sem dar as costas ao mercado colocou o Estado no comando da economia.

Ao inverter os sinais do seu discurso, Serra levará o PSDB a negar Fernando Henrique pela terceira vez, como Pedro fez a Cristo. Mas a estratégia de prometer continuar o governo de Lula poderá se mostrar tão equivocada quanto a tentativa de romper com o governo FHC, em 2002. O eleitor, que hoje não quer mudanças, não teria por que votar em candidato da oposição que promete fazer o que já está sendo feito, e bem feito.

Geraldo Seabra

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